O
Sanfoneiro Luiz Gonzaga começou seu compromisso musical para com o povo brasileiro,
iniciado desde sua infância com o pai, Seu Januário, de ano de 1941 a 1989 por
ocasião de sua partida para a eternidade. Durante os 50 anos de sua vida
musical teve 53 parceiros musicais, aproximadamente, dos quais o Sr. Dr.
Humberto Teixeira fez parte destes, sendo o 7º parceiro do 'Sanfoneiro do Povo
de Deus', parceria que duraria de 1946 a 1952. Assim como os demais, este, teve
uma boa participação na parceria com 'Lua'. O 'Eterno Cantador' cantou ainda
músicas de aproximadamente 198 compositores, contudo, com a grande preocupação
se essas músicas, tinham realmente compromisso com o Nordeste. Tudo isso além
de suas composições pessoais.
Foi o 'Véio Macho' o primeiro a ter
compromisso pelo Nordeste, conforme afirmara Veríssimo de Melo: "De raízes
autenticamente nordestinas - justifica - sua música foi um grito de protesto e
ao mesmo tempo de amor pela nossa região. Ninguém, antes deles, falou com maior
propriedade insistentemente pela valorização do homem nordestino. Falou com o
coração e com a música - as duas faces de sua sensibilidade de
predestinado". Sua música não era falácia, mas um canto que brotava da
realidade de cada homem brasileiro, em especial, do homem nordestino.
O Soldado de Getúlio Vargas, de 1930
a 1939, queria ganhar a vida por meio da música, mas com uma música
autenticamente brasileira, não precisando importar. Após passar pela zona
violenta do Rio, o Mangue, e chegar a Rádio Nacional, ele queria cantar o
Nordeste, conforme, afirmara à Dominique Dreyfus: "Eu queria cantar o
Nordeste. Eu tinha a música, tinha o tema. O que eu não sabia era continuar. Eu
precisava de um poeta que saberia escrever aquilo que eu tinha na cabeça, de um
homem culto pra me ensinar as coisas que eu não sabia". O filho de Januário
e Santana continuava a procurar um parceiro para que o completasse, vindo a
ocorrer o encontro com Humberto Teixeira. O Doutor do Baião metrificava aquilo
que Gonzaga tirava de forma ampla de seu matulão, que tinha trazido do Sertão,
lá Nordeste para o Sul. O Moleque "amarelo, bochudo, cabeça de papagaio,
zambeta, fei pá peste" finalmente estava se encontrando com o parceiro que
sempre sonhara. Contudo, o Sr. Dr. Humberto Teixeira a princípio não pensava
que estava fazendo uma parceria com o Maior Sanfoneiro Nordestino, Sua
Majestade, o Rei do Baião.
Ambos, antes do encontro, já tinham
sua história musical: Humberto Teixeira entendia de flauta e bandolim, já tinha
músicas gravadas tais como - valsas, cantigas, sambas, modinhas, toadas - nada
tinha de especificamente nordestino; Luiz Gonzaga já tinha gravado e tocado
mazurca, valsa, xamego, choro, polca, chorinho, picadinho, quadrilha,
valsa/marcha, marcha, calando, embolada e xote. Vale ressaltar que xote ele
tocava com Pai Januário lá no Araripe, mas ainda não tinha gravado. Desse
encontro que duraria 5 anos de trabalho musical, a dupla Gonzaga/Teixeira
produziu, compôs e gravou xote, toada, polca, baião, siridó, batucada, xaxado.
Numa tarde de agosto de 1945, Gonzaga
se encontra com Humberto Teixeira e manifesta a vontade de cantar o Nordeste,
sanfonando temas tradicionais do Araripe, Exu. Então surge, flui, da dupla a
música No Meu Pé de Serra, um xote autobiográfico, com melodia inspirada numa
música do repertório de Seu Januário.
Luiz Gonzaga anos mais tarde, no livro 'A
Saga de Luiz Gonzaga de Dominique Dreyfus, relembra o encontro afirmando,
falando da origem dessa música: "Lá no meu pé de serra/Deixei ficar meu
coração/Ai que saudades eu tenho/Quero voltar pro meu sertão...". "Essa
letra dizia a saudade que eu sentia do Nordeste". Será que ainda se pode
negar que essa música não seja sentimento e enredo de Luiz Gonzaga, e que não
tenha como fonte, o Araripe, o Nordeste? A parceria de Luiz Gonzaga e Humberto
Teixeira tiveram outros clássicos, nos quais, quero destacar a música Asa
Branca.
Denise Dummont, filha do Dr. Humberto
Teixeira o parceiro de Luiz Gonzaga na música Asa Branca, chegou a afirmar
neste excelente veículo de comunicação do dia 20 de maio em curso, no Caderno
Vida & Arte chegou a afirmar: "Todo mundo canta 'Asa Branca' e ninguém
sabe quem foi Humberto Teixeira, quando na verdade ele foi grande compositor.
Ele fez várias músicas sozinho. (...). A obra musical do papai ficou ofuscada
pelo grande pernambucano Luiz Gonzaga. está na hora de trazer o papai à
tona". Na verdade vivemos numa sociedade onde os valores culturais são na
sua maioria esquecidos, mas, é preciso despertar e conservá-los em nossa
sociedade hodierna.
É preciso que fique claro que a
música faz parte desses valores culturais em crise. Faço destaque a música de
Luiz Gonzaga com seus parceiros e compositores que tinha um compromisso
especial para com o Nordeste. Teria sido bem melhor se dona Denise Dummont ao
falar da importância da música Asa Branca tivesse mencionado a parceria de Luiz
Gonzaga/Humberto Teixeira, conforme trazem os LPs. Pois essa música foi
parceria dos dois, segundo depoimentos de Luiz Gonzaga: "Com Humberto
Teixeira fiz Asa Branca, o Baião, Assum Preto, tantas músicas de minha
sensibilidade e que ficarão comigo eternamente. Quando apresentei a música a
Humberto falei para ele: Agora estou com vontade de fazer Asa Branca. Mas não
boto muita fé, porque é muito lenta, cantiga de eito, de apanha de algodão.
Humberto pediu para eu cantar a música, eu cantei e ele me convenceu a fazê-la".
Luiz Gonzaga era conhecedor dessa
riqueza musical porque ouvia o pai, Seu Januário tocar no seu fole de 8 baixos:
"Asa Branca foi-se embora/ Bateu asa do Sertão/ Larará não chore
não..." e o povo dava continuidade, completava o tema dado por Seu
Januário. O Rei do Baião ainda relembra os momentos em que compunha com
Humberto Teixeira, afirmando: "Quando eu quis me lembrar das coisas que
tocava quando era menino, para Humberto Teixeira botar letra, eu tive certa
dificuldade, não me lembrava muito". Tudo isso nos prova que Sr. Dr.
Humberto Teixeira juntamente com Luiz Gonzaga deram letras aos temas que
Gonzaga trazia lá do Araripe, a cantiga do povo.
Gonzagão com sua intuição sertaneja
que sempre acompanhara, falando sobre a contribuição que dá ao folclore, diz:
"A pessoa não deve matar o tema, deve melhorá-lo. Asa Branca era folclore.
Eu toquei isso quando era menino com meu Pai. Mas aí chega Humberto Teixeira e
coloca: 'Quando olhei a terra ardendo/ Qual fogueira de São João... e se conclui
um trabalho sobre Asa Branca". Humberto Teixeira, o Doutor do Baião, teve
uma participação especial e importante em melhorar com Luiz Gonzaga o trabalho
sobre Asa Branca, porém, ele não autoridade exclusiva sobre o tema. Esse
clássico Gonzaga já conhecia desde a sua infância por meio da tradição oral.
Também é necessário reconhecer que Humberto Teixeira fez outras músicas sozinho
e com outros parceiros.
Denise chegou afirmar ainda que Luiz
Gonzaga tinha ofuscado a obra musical de seu pai, e que estava na hora de
trazê-lo à tona. Realmente concordo que o Sr. Dr. Humberto Teixeira está
esquecido, bem como, dá ênfase nos dias de hoje a importância dele na história
musical, mas, não se deveria ofender, molestar a pessoa do Cantor e Sanfoneiro
Luiz Gonzaga, in memoriam.
O Rei do Baião jamais ofuscou
Humberto Teixeira, pelo contrário, em setembro de 1968 lançou um LP
homenageando o Parceiro, intitulado: Meus Sucessos com Humberto Teixeira; e em
1970 lançou: Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira (Coleção História da MPB/ Abril
Cultural). Como ainda se diz que Luiz Gonzaga ofuscou musicalmente Humberto
Teixeira? Lamento muito, acho que a senhora Denise Dummont não foi tão feliz
nessa colocação.
Por volta de 1952 num determinado
evento no Rio de Janeiro, Ademar de Barros foi cumprimentá-lo e disse, segundo
depoimento do próprio Humberto Teixeira, "que eu era um bom orador e que
eu deveria me candidatar. E que ia me dar uma legenda... eu acabei com uma
suplência e depois me diplomando como deputado federal. Luiz Gonzaga estava na
época em Rio Grande do Norte quando soube que eu estava me candidatando, e saiu
de lá e veio me prestar uma ajuda maravilhosa, inclusive de transporte,
gasolina. Eu não tinha dinheiro nenhum e posso dizer que foi Luiz Gonzaga que
me colocou na deputação".
O motivo, pela qual, parceria de
Gonzaga/Teixeira chegou ao fim e num clima de grande amizade, segundo
depoimentos de Dr. Humberto Teixeira: "Ora, existia uma lei que proibia um
autor de uma sociedade fazer parceria com um compositor de Outra. Por isso,
parou a parceria. Mas nada disso afetou a nossa amizade". Essa sociedade
eram as associações de direitos autorais. Será que depois de tudo isso, Luiz
Gonzaga teria ofuscado Dr. Humberto Teixeira.
O folclorista Câmara Cascudo ao fazer
referência à obra e a pessoa de Luiz Gonzaga, classifica-o de paisagem
pernambucana, paisagem composta de água, matos, caminhos, silêncios, gente viva
e morta. "O artista Gonzaga nunca se separou do homem sertanejo que jamais
esqueceu suas raízes e cantou sua saudade e todo o amor que tinha pelo Sertão e
seu povo. Tanto que sua obra é um verdadeiro acervo cultural do Nordeste, onde
se encontra o perfil completo da Região com todos os seus personagens e os seus
detalhes".
Não dá para
ficar calado. É necessário
fazer justiça à obra e à pessoa que defendeu o Nordeste até a morte. Faço
minhas as palavras de Nelson Barbalha: "Gonzagão, de saudosa memória,
sustentou a peteca durante mais de meio século, sem jamais deixá-la cair no
chão. Foi, é, e será inatingível. Muita gente o imita, ninguém o iguala. Era
mesmo insubstituível". Ele era realmente "O Homem da Terra",
"O Asa Branca da Paz".
Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira
Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira
Nenhum comentário:
Postar um comentário