
Não foram apenas cinqüenta anos de chão, foram também
cinqüenta anos de céu. Com a sanfona de oito baixos e a voz soando a
sertão, o cidadão pernambucano Luiz Gonzaga do Nascimento – Lula para os
de casa, Luí para outros, Gonzagão para diferençar do
filho
também famoso, Luiz Gonzaga para o mundo – criou uma obra
poético-musical única, inspirada tanto na sua vivência de sertanejo duro
e sofrido como nos arrebatamentos românticos de homem sensível que ele
decerto foi. Se cantou as terras secas e tristes cá de baixo, terras que
seus pés de moço um dia pisaram...
Quando oiei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu:
"Ai, pru que tamanha judiação?"
... cantou também as imensidões iluminadas lá de cima...
Olha pro céu, meu
amor,
Vê como ele está lindo
Olha pr’aqueles balão multicor
Como no céu vai sumindo.
E se cantou o orgulho ferido de caboclo que o Sul quis ajudar...
Mas, doutor, uma esmola
A um homem que é são
Ou lhe mata de vergonha
Ou vicia o cidadão
...cantou também lirismos singelos e nostálgicos...
Se a gente lembra pro lembra
O amor que a gente um dia perdeu
Saudade inté que assim é bom
Um cantador de talento raro cujas cantigas não falavam apenas de
animadas
festas nordestinas, mais tarde conhecidas como forrós, nem só dos
amores perdidos em arraiais juninos, mas também das tristezas e
injustiças sociais de sua terra, mais Brasil que sertão.
Esta não é a primeira vez que nos atrevemos a comparar
Luiz Gonzaga a um quixotesco cantador que – com seus baiões, xotes,
toadas, xaxados, côcos e xeréns – levou a árida realidade do Nordeste
para um Sul que, na época, respirava os perfumados e tecnicoloridos
sonhos musicais que Hollywood nos mandava a bordo da Política da Boa
Vizinhança. Um cantador, acima de tudo, ousado.
"Sozinho, como um Quixote de chapéu de couro – escrevemos no
dia de sua morte – ousou furar a onda da música norte-americana que
invadiu o Brasil, na década de 40, para mostrar ao país como de dançava o
baião ou como se fazia um forró. Foi grande o bastante para transformar
a lição em tradição. E mais: ensinou ao brasileiro o caminho da
redescoberta de toda uma
cultura
nordestina, em baixa desde que os Turunas da Mauricéia saíram de moda
em fins dos anos vinte. Fez tudo isso com grande personalidade e enorme
talento".
Para explicar melhor essa
breve eulogia em forma de pensata, lembremos que os Turunas da Mauricéia
foram dos muitos grupos nordestinos que, na década de vinte, invadiram o
Sul do Brasil com sua música. Bem antes deles, já fazia sucesso na
velha Capital da República um caboclo de nome poético e versos
pernósticos que a primeira-dama do país Nair de Teffé, levara para
cantar e tocar num recital no Catete: Catulo da Paixão Cearense. Um
atrevimento tal que Ruy Barbosa, o principal adversário do presidente,
marechal Hermes da Fonseca, proferira indignado discurso no Senado.
Imaginem! Em vez de obras de Wagner e Chopin, ouviam-se em palácio... o
corta-jaca e as modinhas de Catulo!
A música
popular – sobretudo a regional – seria, por muito tempo, alvo de
semelhantes preconceitos no principal centro cultural do país. Catulo,
para ser aceito, teve de copidescar seus versos, urbanizá-los, afiná-los
pela estética preciosística dos modinheiros do começo do século.
Transformou-se num sertanejo vestido a rigor. Já os grupos do tipo
Turunas da Mauricéia, estes não foram aceitos nunca, a não ser pelas
camadas mais populares. Enfeitaram os carnavais cariocas com seus
ritmos, fizeram de Pinião a música mais cantada na folia de 1928,
influenciaram jovens cariocas como Pixinguinha (que chegou a desfilar
num bloco vestido de cangaceiro) e Almirante (fundador e líder do Bando
de Tangarás, organizado para cantar modas de ciola, desafios, cocos,
cateretês, emboladas), mas na verdade nenhum deles, grupos nordestinos,
obteve as bênçãos das elites intelectuais, palacianas ou não.
Com a eclosão do samba no fim da década – em especial a
partir do surgimento dos bambas do Estácio, de gênios do morro como
Cartola, de artistas do rádio como Ary Barroso, Lamartine Babo, João de
Barro e Noel Rosa – a música nordestina entrou em longo e absoluto
recesso. Pior que isso, passou a ser considerada de mau gosto. Em
especial para uma crítica acadêmica (a mesma que hoje classifica de
brega o popular vigente em universo social diferente do seu), a música
nordestina era coisa menor, sem importância. Podia-se aceitar uma dupla
caipira ou sertaneja nos moldes de Jararaca & Ratinho ou Alvarenga
& Ranchinho. Mas só pelas piadas, pela graça, nunca pela música
(pouco se davam conta, por exemplo, de que Ratinho era músico
excepcional e que Ranchinho, se se levasse a sério, poderia ter sido
ótimo letrista).
Em 1940, com menos de cinco
anos de existência, a PRE-8, Rádio Nacional do Rio de Janeiro, começaria
a mudar esse quadro. Meio sem querer, é verdade, como se escrevendo
certo por tortas linhas. A guerra já começara na Europa. Tendo em
relação a ela uma posição de início ambígua, o presidente Getúlio Vargas
confiava cada vez mais no projeto de seu colaborador Lourival Fontes:
usar o rádio para, unindo culturalmente o país, uni-lo também
politicamente. Em torno do próprio Vargas, claro. Pressionado a entrar
na guerra, do lado que não era bem o de sua simpatia, o presidente viu a
cultura do seu país – dentro dela a música popular – navegar por dois
mares distintos: a Política da Boa Vizinhança, que os Estados Unidos nos
mandavam na forma de jazz, filmes, big bands, Bing Crosby, suíngues,
Frank Sinatra, your hit parade, tudo fazendo da música americana o
modelo a seguir e influenciando maciçamente os compositores e
intérpretes brasileiros; e o projeto da PRE-8 que, redescobrindo o
Brasil para depois uni-lo culturalmente, tirava de limbos distantes o
regionalismo musical do Norte e do Sul e reagia, meio sem querer, à
Política da Boa Vizinhança. É neste ponto que entra em cena o nosso
Quixote.
Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu
numa fazenda de Exu, Pernambuco, em 13 de dezembro de 1912. Aprendeu a
tocar vendo e ouvindo o pai, o sanfoneiro Januário, animar bailes nos
sábados da cidade e consertar foles, harmônicos, pés-de-bode, ou de que
outra forma se chamava lá o acordeom.

- Ficava por ali, desasnando – lembraria ele. – Na
igreja de São João Batista, perto de 16 de junho, juntavam-se os
tocadores do lugar. Sua música atraía o pessoal para as festas
religiosas. Chegada essa época, eu ia pra lá, puxava assunto com o
tocador, pedia pra experimentar o instrumento, a zabumba, a caixa, o
pífano, a sanfona. Fui aprendendo.
Por obra do
acaso (e do amor) o jovem Lula logo emigrou para o Sul. Tinha dezoito
anos quando se apaixonou por Nazarena, moça endinheirada do lugar. O pai
dela, um certo Raimundo Deolindo, deixou claro, e fez questão de
espalhar por toda Exu, que não a queria ver de namoro com aqueles
"neguinho sem futuro". Ao saber disso, Lula tomou coragem (ou melhor,
uma talagada de cana) e foi tirar satisfações com o pai da moça na feira
de domingo, bem diante de todo o povo. Raimundo queixou-se à dona
Santana, mãe de Lula: "Outro desrespeito desse, minha senhora, pode
acabar em sangue", ameaçou. Dona Santana, Mais temerosa que zangada, não
respeitou os dezoito anos do filho e deu-lhe uma surra. Humilhado e
ofendido, o rapaz vendeu a sanfona, arrumou a trouxa e partiu.

A primeira escala foi Fortaleza, onde Lula entrou para o Exército e
tornou-se cabo corneteiro. Viajou muito. Andou por São Paulo, fez
biscates, comprou sanfona nova, até que desembarcou no Rio de Janeiro
disposto a ganhar a vida com música. Seu primeiro emprego na cidade foi
no Mangue, zona de meretrício que, na época, ao lado de casas de quinta
categoria, mantinha botequins iluminados, de razoável aparência, com
arrasta-pés vespertinos e música ao vivo. Seu repertório, então, era
composto de tangos, boleros, valsas, fox trors. Uma noite, depois de
ouvi-lo, um estudante pernambucano de passagem disse-lhe:
- Você toca muito bem, seu moço. Mas por que não ataca umas
coisinhas lá da nossa terra pra matar a saudade. Deixa o tango pra lá.
Olha, da próxima vez que a gente vier aqui, se você não tocar umas
músicas nordestinas, não vai ter dinheiro no seu pires.
Pensando em tudo aquilo, especialmente no dinheiro no pires,
compôs dois chamegos, Pé de Serra e Vira e Mexe. Consciente de que o
rádio era o principal veículo para a música naquele 1941, inscreveu-se
no programa de calouros de Ary Barroso, solou o Vira e Mexe, ganhou o
primeiro prêmio e, não muito depois, foi contratado pela Nacional.
A famosa emissora realmente escreveu certo por
tortas linhas. Tinha em seu cast – misturando a proposta getulista à da
Boa Vizinhaça, numa polivalência cultural realmente impressionante –
vários tipos de orquestra: sinfônica, de música brasileira, de tangos,
de danças da moda, de ritmos caribenhos. E vários tipos de intérpretes:
cantores de opereta, de baladas francesas, de fox trot, de bolero, de
canções do Oeste americano vertidas para o português, mas também de
samba, de choro e de toda sorte de gêneros regionalistas, o Pedro
Raimundo das rancheiras dos Pampas, a Stelinha Egg do folclore central,
as duplas caipiras de sotaque mineiro ou paulista e, naturalmente, o som
nordestino do moço Luiz Gonzaga.
Os
preconceitos estavam longe de ser superados quando Lula e sua sanfona
foram ouvidos pela primeira vez no auditório da PRE-8. Compenetrado no
papel de representante da nordestinidade, ele tratou de vestir-se a
caráter, alpercatas de couro, roupas de boiadeiro, chapéu de cangaço.
Afinal, se Pedro Raymundo entrava no palco de bombachas para representar
o Sul, se Ruy Rey trajava-se de rumbeiro e se Bob Nelson era caubói
estilizado (enfeitado de revólveres, cartucheiras e tudo mais, para se
transformar num Roy Rogers tupiniquim), por que não ele, Gonzaga, se
vestindo à maneira do sertão? Floriano Faissal, diretor artístico da
Nacional, protestou em nome do "bom gosto":

- Enquanto eu mandar nesta rádio, não permitirei que
você apareça diante de nosso público vestido de bandido de Lampião.
É evidente que Faissal acabaria mudando de idéia,
mas não em antes obrigar Gonzaga a cantar, no maior desconforto, de
smoking. Contra a vontade, e por motivos diferentes dos de Catulo,
converteu-se num sertanejo vestido a rigor.
Depois, vieram o sucesso, a glória, a força do talento derrubando
preconceitos e reabrindo as portas do meio musical para o esquecido
Nordeste. Em 1950, o baião já era tão ouvido no rádio quanto o samba, o
bolero e os ritmos estrangeiros da moda. Muitos chegavam a pensar que
aquela "nova dança"tinha sido inventada por Luiz Gonzaga e seus dois
parceiros, Humberto Teixeira e Zédantas (na verdade, o baião, cujo nome
deriva de baiano, já era conhecido em fins do século passado, e Januário
deve tê-lo tocado em seu fole).
Humberto Teixeira e Zédantas
nunca foram muito amigos. Gonzaga era o único elo entre eles, Teixeira,
que apareceu primeiro, era advogado. Dantas, mais moço cinco anos, era
médico. Os dois se interessavam por política, o primeiro elegendo-se
deputado pelo partido de Adhemar de Barros e o outro orgulhando-se de
ser "apenas um anônimo sertanista". Teixeira tinha uma ambição:
universalizar a música nordestina, o que tantou fazer através da lei que
levou o seu nome. Dantas preferia cantar as coisas do agreste. Foi o
próprio Luiz Gonzaga quem melhor estabeleceu as diferenças entre os
dois:
- Humberto era mais mesclado com a
cidade, com o asfalto. E Zédantas veio do sertão bravo. Eu costumava
dizer que podia sentir o cheiro de bode na pessoa dele.
Com Humberto Teixeira, Gonzaga fez No Meu Pé de Serra, Baião
(Eu vou mostrar pra você como se dança o baião..."), Paraíba, Respeita
Januário, Juazeiro, Xandusinha, Estreada de Canindé, Qui Nem Jiló, Assum
Preto e a obra-prima dos sois, Asa Branca. Com Zédantas, fez Vem
Morena, Cintura Fina, Forró de Mané Vito, 13 de Dezembro, Sabiá, Riacho
do Navio, Imbalança, ABC do Sertão, São João na Roça, Noites
Brasileiras, A Dança da Moda, O Xote das Meninas, A Volta da Asa Branca e
Vozes da Seca.
Durante todo esse tempo, os
olhos atentos de Luiz Gonzaga viram muita coisa acontecer: sua música
saindo e voltando ciclicamente à moda, Asa Branca esquecida e depois
convertida em hino, jovens talentos surgindo (a geração de Caetano, Gil,
Alceu, Moraes, baianos e pernambucanos novos mirando-se nele para
reabilitar a nordestinidade e reinventá-la mais adiante). Incluía-se na
mesma geração seu próprio filho, Luiz Gonzaga Jr., Algo renegado em
menino (nasceu no morro de São Carlos, foi criado por amigos da mãe e só
aos 16 anos se aproximou do velho), mas que logo cresceria para se
escalar no primeiro time da música popular e acabar se unindo ao pai
entre as estrelas de uma mesma constelação, Gonzaguinha um, Gonzagão
outro.
Nesse meio século, o Gonzaga pai jamais
perdeu o prestígio. Teve praticamente uma única gravadora, a RCA
Victor, hoje BMG, e nela perpetuou mais de mil canções, suas ou de
outros. Pode ter saído do palco por momentos, mas perder o prestígio,
nunca.
- Sim, aí pelos anos sessenta, achei
melhor me afastar – contaria ele. – A garotada estava crescendo muito.
Era a época das guitarras, dos cabeludos. O rádio ia virando coisa do
passado. E a imagem que a televisão queria mostrar ao seu público era de
coisa mais sofisticada, nunca de um cangaceiro de chapéu esquisito,
empunhando uma sanfona.
Foi mas voltou logo.
Para compor, tocar e cantar o quanto a saúde lhe permitiu. Andou
alternando a música com atividades outras, como a de apaziguador de
briga entre famílias rivais do sertão pernambucano (selou-lhes a paz
tocando para elas em praça pública), visitas nostálgicas ou diplomáticas
a Exu e um namoro com a política que não deu em casamento. Chegou a
pensar em seguir as pegadas do parceiro Humberto, candidatando-se a
deputado federal pelo PDS.
- Mas vi que entrar
na política com aquela idade (70 anos) era a mesma coisa que velho se
casando com moça nova.
Ficou com a sanfona de
oito baixos e a voz soando a sertão. Sua música – que acabou triunfando
sobre os altos e baixos das novidades do momento – continuou sendo o que
sempre foi: autêntica, rica, poderosa, de espírito agreste e cheiro de
terra. Uma música difícil de descrever, como acontece com as melhores
artes populares, e de cuja grandeza o próprio Luiz Gonzaga parecia não
ter muita consciência.
Disse ele numa entrevista de 1971, quando mais uma vez o Brasil o redescobria:
- É melhor vocês falarem de mim, porque eu mesmo não
sei o que sou, não sei por que falam de mim. Eu mesmo não entendo nada,
eu vou levando. Pra mim tanto faz. Que é bacana, é... Mas deixa o povo
falar.
Sanfona e voz silenciaram para sempre
em 2 de agosto de 1989, em Recife, onde o coração do velho cantador,
minado por seis meses de doença (a uma osteoporose seguiram-se vários
tipos de infecção e uma pneumonia fatal), parou por volta das cinco e
meia da manhã. Seu corpo, embalsamado, foi velado na capital, Juazeiro
do Norte e na Exu natal, onde o sepultaram no fim da tarde.
Gonzaga morreu quatro anos depois de tocar em Paris e dois
depois de ganhar o Prêmio Shell de Música Popular, o fole de "mau
gosto" fazendo-se ouvir entre as paredes nobres do Teatro Municipal.
Morreu seis anos depois, enfim, daquele breve namoro com a política:
"Serei um deputado feliz – disse ele na ocasião – se ajudar o Brasil a
ter consciência de seu sertão". Como se sua música não o tivesse feito.