sábado, 2 de junho de 2012

Baião


A dança que Luiz Gonzaga ensinou


"Eu vou mostrar pra vocês  Luiz Gonzaga
como se dança o baião
e quem quiser aprender
é favor prestar atenção"
(Baião, Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira, 1946)

  Como outros gêneros, o baião designou inicialmente um tipo de reunião festeira dominada pela dança. O folclorista Câmara Cascudo o associa aos termos "baiano" e "rojão". Este último seria o pequeno trecho musical executado pelas violas no intervalo dos desafios da cantoria. Quem imprimiu o formato urbano (e portanto pop) ao gênero foi o sanfoneiro pernambucano Luiz Gonzaga do Nascimento (1912-1989). Imigrante pobre no começo da década de 40, Gonzaga passava o pires nos bordéis do Mangue carioca enquanto tirava na sanfona valsas, sambas e serestas de sucesso na época. Estimulado por frequentadores conterrâneos anexou a seu repertório "coisas do sertão", entre elas o baião. Com o primeiro parceiro o fluminense Miguel Lima compunha mais mazurcas, calangos e ritmos adjacentes. Associado ao compositor e advogado cearense Humberto Cavalcanti Teixeira (1916-1979) obteve o respaldo poético telúrico que lhe faltava. Mas Teixeira admitia que a idéia tinha sido do parceiro. Em depoimento ao pesquisador Miguel Angelo de Azevedo, o Nirez, reproduzido no livro Vida do viajante: a saga de Luiz Gonzaga, de Dominique Dreyfus (Editora 34, 1996), ele garantiu que Gonzaga planejou meticulosamente o lançamento nacional do baião, junto com outros gêneros nordestinos.
  O ritmo binário do baião, vestido por melodias dolentes muitas delas em modo menor, foi devidamente estilizado, amaciado para o paladar urbano pelo sanfoneiro. Antes dele, o cearense Lauro Maia (Teles, 1912-1950), autor entre outros do sucesso Trem de Ferro, gravado por João Gilberto, fez a primeira tentativa de emplacar um gênero nacional a partir do nordeste, através do balanceio, gravado com algum êxito pela dupla Joel e Gaúcho (Marcha do Balanceio) e dos Vocalistas Tropicais (Tão Fácil, Tão Bom).
O sucesso de Gonzaga na empreitada foi tão grande que ele desequilibrou o eixo da MPB do meio para o fim dos anos 40 até meados dos 50. Antes o mercado musical era lastreado no samba, marchinha, choro e outros produtos do centro cultural do país, o Rio. A bordo de sucessos monumentais como o supracitado Baião e mais Asa Branca, Juazeiro, Paraíba, Qui nem Giló, Respeita Januário, Sabiá, Vem Morena, Baião de Dois, Imbalança, Noites brasileiras e inúmeros outros (além de xotes, xamegos, toadas, cocos, xaxados e até maracatu), Gonzaga colocou o nordeste no mapa (inclusive das vendas) da MPB. No auge, as prensas da gravadora RCA (atual BMG) onde era contratado, trabalhavam quase exclusivamente para seus discos. Além de Teixeira, Gonzaga teve outro parceiro fixo, o médico pernambucano José de Souza Dantas Filho, o Zé Dantas (1921-1962), responsável por obras primas como a toada A Volta da Asa Branca, A Dança da Moda (referência ao sucesso do baião), Riacho do Navio, Vozes da Seca, Cintura Fina, Algodão e alguns dos relacionados acima.

LP's

Nomes de Alguns LP's

Um pouco mais sobre Luiz Gonzaga

Luiz Gonzaga - 50 Anos de Chão           Não foram apenas cinqüenta anos de chão, foram também cinqüenta anos de céu. Com a sanfona de oito baixos e a voz soando a sertão, o cidadão pernambucano Luiz Gonzaga do Nascimento – Lula para os de casa, Luí para outros, Gonzagão para diferençar do filho também famoso, Luiz Gonzaga para o mundo – criou uma obra poético-musical única, inspirada tanto na sua vivência de sertanejo duro e sofrido como nos arrebatamentos românticos de homem sensível que ele decerto foi. Se cantou as terras secas e tristes cá de baixo, terras que seus pés de moço um dia pisaram...

Quando oiei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu:
"Ai, pru que tamanha judiação?"

... cantou também as imensidões iluminadas lá de cima...

Olha pro céu, meu amor,
Vê como ele está lindo
Olha pr’aqueles balão multicor
Como no céu vai sumindo.

E se cantou o orgulho ferido de caboclo que o Sul quis ajudar...

Mas, doutor, uma esmola
A um homem que é são
Ou lhe mata de vergonha
Ou vicia o cidadão

...cantou também lirismos singelos e nostálgicos...

Se a gente lembra pro lembra
O amor que a gente um dia perdeu
Saudade inté que assim é bom

           Um cantador de talento raro cujas cantigas não falavam apenas de animadas festas nordestinas, mais tarde conhecidas como forrós, nem só dos amores perdidos em arraiais juninos, mas também das tristezas e injustiças sociais de sua terra, mais Brasil que sertão.
         Esta não é a primeira vez que nos atrevemos a comparar Luiz Gonzaga a um quixotesco cantador que – com seus baiões, xotes, toadas, xaxados, côcos e xeréns – levou a árida realidade do Nordeste para um Sul que, na época, respirava os perfumados e tecnicoloridos sonhos musicais que Hollywood nos mandava a bordo da Política da Boa Vizinhança. Um cantador, acima de tudo, ousado.
           "Sozinho, como um Quixote de chapéu de couro – escrevemos no dia de sua morte – ousou furar a onda da música norte-americana que invadiu o Brasil, na década de 40, para mostrar ao país como de dançava o baião ou como se fazia um forró. Foi grande o bastante para transformar a lição em tradição. E mais: ensinou ao brasileiro o caminho da redescoberta de toda uma cultura nordestina, em baixa desde que os Turunas da Mauricéia saíram de moda em fins dos anos vinte. Fez tudo isso com grande personalidade e enorme talento".
         Para explicar melhor essa breve eulogia em forma de pensata, lembremos que os Turunas da Mauricéia foram dos muitos grupos nordestinos que, na década de vinte, invadiram o Sul do Brasil com sua música. Bem antes deles, já fazia sucesso na velha Capital da República um caboclo de nome poético e versos pernósticos que a primeira-dama do país Nair de Teffé, levara para cantar e tocar num recital no Catete: Catulo da Paixão Cearense. Um atrevimento tal que Ruy Barbosa, o principal adversário do presidente, marechal Hermes da Fonseca, proferira indignado discurso no Senado. Imaginem! Em vez de obras de Wagner e Chopin, ouviam-se em palácio... o corta-jaca e as modinhas de Catulo!
         A música popular – sobretudo a regional – seria, por muito tempo, alvo de semelhantes preconceitos no principal centro cultural do país. Catulo, para ser aceito, teve de copidescar seus versos, urbanizá-los, afiná-los pela estética preciosística dos modinheiros do começo do século. Transformou-se num sertanejo vestido a rigor. Já os grupos do tipo Turunas da Mauricéia, estes não foram aceitos nunca, a não ser pelas camadas mais populares. Enfeitaram os carnavais cariocas com seus ritmos, fizeram de Pinião a música mais cantada na folia de 1928, influenciaram jovens cariocas como Pixinguinha (que chegou a desfilar num bloco vestido de cangaceiro) e Almirante (fundador e líder do Bando de Tangarás, organizado para cantar modas de ciola, desafios, cocos, cateretês, emboladas), mas na verdade nenhum deles, grupos nordestinos, obteve as bênçãos das elites intelectuais, palacianas ou não.
         Com a eclosão do samba no fim da década – em especial a partir do surgimento dos bambas do Estácio, de gênios do morro como Cartola, de artistas do rádio como Ary Barroso, Lamartine Babo, João de Barro e Noel Rosa – a música nordestina entrou em longo e absoluto recesso. Pior que isso, passou a ser considerada de mau gosto. Em especial para uma crítica acadêmica (a mesma que hoje classifica de brega o popular vigente em universo social diferente do seu), a música nordestina era coisa menor, sem importância. Podia-se aceitar uma dupla caipira ou sertaneja nos moldes de Jararaca & Ratinho ou Alvarenga & Ranchinho. Mas só pelas piadas, pela graça, nunca pela música (pouco se davam conta, por exemplo, de que Ratinho era músico excepcional e que Ranchinho, se se levasse a sério, poderia ter sido ótimo letrista).
         Em 1940, com menos de cinco anos de existência, a PRE-8, Rádio Nacional do Rio de Janeiro, começaria a mudar esse quadro. Meio sem querer, é verdade, como se escrevendo certo por tortas linhas. A guerra já começara na Europa. Tendo em relação a ela uma posição de início ambígua, o presidente Getúlio Vargas confiava cada vez mais no projeto de seu colaborador Lourival Fontes: usar o rádio para, unindo culturalmente o país, uni-lo também politicamente. Em torno do próprio Vargas, claro. Pressionado a entrar na guerra, do lado que não era bem o de sua simpatia, o presidente viu a cultura do seu país – dentro dela a música popular – navegar por dois mares distintos: a Política da Boa Vizinhança, que os Estados Unidos nos mandavam na forma de jazz, filmes, big bands, Bing Crosby, suíngues, Frank Sinatra, your hit parade, tudo fazendo da música americana o modelo a seguir e influenciando maciçamente os compositores e intérpretes brasileiros; e o projeto da PRE-8 que, redescobrindo o Brasil para depois uni-lo culturalmente, tirava de limbos distantes o regionalismo musical do Norte e do Sul e reagia, meio sem querer, à Política da Boa Vizinhança. É neste ponto que entra em cena o nosso Quixote.
         Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu numa fazenda de Exu, Pernambuco, em 13 de dezembro de 1912. Aprendeu a tocar vendo e ouvindo o pai, o sanfoneiro Januário, animar bailes nos sábados da cidade e consertar foles, harmônicos, pés-de-bode, ou de que outra forma se chamava lá o acordeom.Seu Januário e Dona Santana
         - Ficava por ali, desasnando – lembraria ele. – Na igreja de São João Batista, perto de 16 de junho, juntavam-se os tocadores do lugar. Sua música atraía o pessoal para as festas religiosas. Chegada essa época, eu ia pra lá, puxava assunto com o tocador, pedia pra experimentar o instrumento, a zabumba, a caixa, o pífano, a sanfona. Fui aprendendo.
         Por obra do acaso (e do amor) o jovem Lula logo emigrou para o Sul. Tinha dezoito anos quando se apaixonou por Nazarena, moça endinheirada do lugar. O pai dela, um certo Raimundo Deolindo, deixou claro, e fez questão de espalhar por toda Exu, que não a queria ver de namoro com aqueles "neguinho sem futuro". Ao saber disso, Lula tomou coragem (ou melhor, uma talagada de cana) e foi tirar satisfações com o pai da moça na feira de domingo, bem diante de todo o povo. Raimundo queixou-se à dona Santana, mãe de Lula: "Outro desrespeito desse, minha senhora, pode acabar em sangue", ameaçou. Dona Santana, Mais temerosa que zangada, não respeitou os dezoito anos do filho e deu-lhe uma surra. Humilhado e ofendido, o rapaz vendeu a sanfona, arrumou a trouxa e partiu.Luiz Gonzaga no Exército
          A primeira escala foi Fortaleza, onde Lula entrou para o Exército e tornou-se cabo corneteiro. Viajou muito. Andou por São Paulo, fez biscates, comprou sanfona nova, até que desembarcou no Rio de Janeiro disposto a ganhar a vida com música. Seu primeiro emprego na cidade foi no Mangue, zona de meretrício que, na época, ao lado de casas de quinta categoria, mantinha botequins iluminados, de razoável aparência, com arrasta-pés vespertinos e música ao vivo. Seu repertório, então, era composto de tangos, boleros, valsas, fox trors. Uma noite, depois de ouvi-lo, um estudante pernambucano de passagem disse-lhe:
         - Você toca muito bem, seu moço. Mas por que não ataca umas coisinhas lá da nossa terra pra matar a saudade. Deixa o tango pra lá. Olha, da próxima vez que a gente vier aqui, se você não tocar umas músicas nordestinas, não vai ter dinheiro no seu pires.
         Pensando em tudo aquilo, especialmente no dinheiro no pires, compôs dois chamegos, Pé de Serra e Vira e Mexe. Consciente de que o rádio era o principal veículo para a música naquele 1941, inscreveu-se no programa de calouros de Ary Barroso, solou o Vira e Mexe, ganhou o primeiro prêmio e, não muito depois, foi contratado pela Nacional.
         A famosa emissora realmente escreveu certo por tortas linhas. Tinha em seu cast – misturando a proposta getulista à da Boa Vizinhaça, numa polivalência cultural realmente impressionante – vários tipos de orquestra: sinfônica, de música brasileira, de tangos, de danças da moda, de ritmos caribenhos. E vários tipos de intérpretes: cantores de opereta, de baladas francesas, de fox trot, de bolero, de canções do Oeste americano vertidas para o português, mas também de samba, de choro e de toda sorte de gêneros regionalistas, o Pedro Raimundo das rancheiras dos Pampas, a Stelinha Egg do folclore central, as duplas caipiras de sotaque mineiro ou paulista e, naturalmente, o som nordestino do moço Luiz Gonzaga.
         Os preconceitos estavam longe de ser superados quando Lula e sua sanfona foram ouvidos pela primeira vez no auditório da PRE-8. Compenetrado no papel de representante da nordestinidade, ele tratou de vestir-se a caráter, alpercatas de couro, roupas de boiadeiro, chapéu de cangaço. Afinal, se Pedro Raymundo entrava no palco de bombachas para representar o Sul, se Ruy Rey trajava-se de rumbeiro e se Bob Nelson era caubói estilizado (enfeitado de revólveres, cartucheiras e tudo mais, para se transformar num Roy Rogers tupiniquim), por que não ele, Gonzaga, se vestindo à maneira do sertão? Floriano Faissal, diretor artístico da Nacional, protestou em nome do "bom gosto":
Luiz Gonzaga vestido de Cangaceiro         - Enquanto eu mandar nesta rádio, não permitirei que você apareça diante de nosso público vestido de bandido de Lampião.
         É evidente que Faissal acabaria mudando de idéia, mas não em antes obrigar Gonzaga a cantar, no maior desconforto, de smoking. Contra a vontade, e por motivos diferentes dos de Catulo, converteu-se num sertanejo vestido a rigor.
         Depois, vieram o sucesso, a glória, a força do talento derrubando preconceitos e reabrindo as portas do meio musical para o esquecido Nordeste. Em 1950, o baião já era tão ouvido no rádio quanto o samba, o bolero e os ritmos estrangeiros da moda. Muitos chegavam a pensar que aquela "nova dança"tinha sido inventada por Luiz Gonzaga e seus dois parceiros, Humberto Teixeira e Zédantas (na verdade, o baião, cujo nome deriva de baiano, já era conhecido em fins do século passado, e Januário deve tê-lo tocado em seu fole).
Humberto Teixeira e Zédantas nunca foram muito amigos. Gonzaga era o único elo entre eles, Teixeira, que apareceu primeiro, era advogado. Dantas, mais moço cinco anos, era médico. Os dois se interessavam por política, o primeiro elegendo-se deputado pelo partido de Adhemar de Barros e o outro orgulhando-se de ser "apenas um anônimo sertanista". Teixeira tinha uma ambição: universalizar a música nordestina, o que tantou fazer através da lei que levou o seu nome. Dantas preferia cantar as coisas do agreste. Foi o próprio Luiz Gonzaga quem melhor estabeleceu as diferenças entre os dois:
         - Humberto era mais mesclado com a cidade, com o asfalto. E Zédantas veio do sertão bravo. Eu costumava dizer que podia sentir o cheiro de bode na pessoa dele.
         Com Humberto Teixeira, Gonzaga fez No Meu Pé de Serra, Baião (Eu vou mostrar pra você como se dança o baião..."), Paraíba, Respeita Januário, Juazeiro, Xandusinha, Estreada de Canindé, Qui Nem Jiló, Assum Preto e a obra-prima dos sois, Asa Branca. Com Zédantas, fez Vem Morena, Cintura Fina, Forró de Mané Vito, 13 de Dezembro, Sabiá, Riacho do Navio, Imbalança, ABC do Sertão, São João na Roça, Noites Brasileiras, A Dança da Moda, O Xote das Meninas, A Volta da Asa Branca e Vozes da Seca.
         Durante todo esse tempo, os olhos atentos de Luiz Gonzaga viram muita coisa acontecer: sua música saindo e voltando ciclicamente à moda, Asa Branca esquecida e depois convertida em hino, jovens talentos surgindo (a geração de Caetano, Gil, Alceu, Moraes, baianos e pernambucanos novos mirando-se nele para reabilitar a nordestinidade e reinventá-la mais adiante). Incluía-se na mesma geração seu próprio filho, Luiz Gonzaga Jr., Algo renegado em menino (nasceu no morro de São Carlos, foi criado por amigos da mãe e só aos 16 anos se aproximou do velho), mas que logo cresceria para se escalar no primeiro time da música popular e acabar se unindo ao pai entre as estrelas de uma mesma constelação, Gonzaguinha um, Gonzagão outro.
         Nesse meio século, o Gonzaga pai jamais perdeu o prestígio. Teve praticamente uma única gravadora, a RCA Victor, hoje BMG, e nela perpetuou mais de mil canções, suas ou de outros. Pode ter saído do palco por momentos, mas perder o prestígio, nunca.
         - Sim, aí pelos anos sessenta, achei melhor me afastar – contaria ele. – A garotada estava crescendo muito. Era a época das guitarras, dos cabeludos. O rádio ia virando coisa do passado. E a imagem que a televisão queria mostrar ao seu público era de coisa mais sofisticada, nunca de um cangaceiro de chapéu esquisito, empunhando uma sanfona.
         Foi mas voltou logo. Para compor, tocar e cantar o quanto a saúde lhe permitiu. Andou alternando a música com atividades outras, como a de apaziguador de briga entre famílias rivais do sertão pernambucano (selou-lhes a paz tocando para elas em praça pública), visitas nostálgicas ou diplomáticas a Exu e um namoro com a política que não deu em casamento. Chegou a pensar em seguir as pegadas do parceiro Humberto, candidatando-se a deputado federal pelo PDS.
         - Mas vi que entrar na política com aquela idade (70 anos) era a mesma coisa que velho se casando com moça nova.
         Ficou com a sanfona de oito baixos e a voz soando a sertão. Sua música – que acabou triunfando sobre os altos e baixos das novidades do momento – continuou sendo o que sempre foi: autêntica, rica, poderosa, de espírito agreste e cheiro de terra. Uma música difícil de descrever, como acontece com as melhores artes populares, e de cuja grandeza o próprio Luiz Gonzaga parecia não ter muita consciência.
         Disse ele numa entrevista de 1971, quando mais uma vez o Brasil o redescobria:
         - É melhor vocês falarem de mim, porque eu mesmo não sei o que sou, não sei por que falam de mim. Eu mesmo não entendo nada, eu vou levando. Pra mim tanto faz. Que é bacana, é... Mas deixa o povo falar.
         Sanfona e voz silenciaram para sempre em 2 de agosto de 1989, em Recife, onde o coração do velho cantador, minado por seis meses de doença (a uma osteoporose seguiram-se vários tipos de infecção e uma pneumonia fatal), parou por volta das cinco e meia da manhã. Seu corpo, embalsamado, foi velado na capital, Juazeiro do Norte e na Exu natal, onde o sepultaram no fim da tarde.
         Gonzaga morreu quatro anos depois de tocar em Paris e dois depois de ganhar o Prêmio Shell de Música Popular, o fole de "mau gosto" fazendo-se ouvir entre as paredes nobres do Teatro Municipal. Morreu seis anos depois, enfim, daquele breve namoro com a política: "Serei um deputado feliz – disse ele na ocasião – se ajudar o Brasil a ter consciência de seu sertão". Como se sua música não o tivesse feito.

Nem Luiz Gonzaga acreditava na Asa Branca

Eterno clássico do povo nordestino, a canção foi tachada de "música de cego".

"Não boto muita fé nessa música, porque é muito lenta, cantiga de eito, de apanhá algodão", disse Luiz Gonzaga para Humberto Teixeira. O advogado cearense quis letrar aquela toada folclórica mostrada pelo amigo, mesmo com o receio dele. A grande parceria, que estava no início, rendeu então seu terceiro fruto. No próximo disco de Gonzaga, que traria a marchinha Vou Pra Roça no lado A, Asa Branca poderia entrar no lado B – os 78 rpm tinham uma música de cada lado.

Em 3 de março de 1947 estavam Gonzaga e Teixeira, mais a banda, para gravar as novidades no estúdio RCA, Rio de Janeiro. “Quando olhei a terra ardendo, qual fogueira de São João...”, entoou o vozeirão. Eis que um dos músicos pega um chapéu e vai passando entre os colegas. “O que é isso?”, perguntou Humberto. “É que isso parece música de cego pedir esmola!”, brincava o violonista Canhoto. Ele não se conformava que, depois de tanto sucesso, o Rei do Baião estivesse cantando “moda de igreja”.

Eu vou pra roça com muié e fio / Vivê pertinho do paiol de mío / Riscá a viola junto do paiol / A gente brinca até o nascer do sol
. Lembra dos versos? Remotamente, talvez. Assim que o disco foi lançado, Vou pra Roça passou totalmente despercebida. Mas Asa Branca estourou no ato, fazendo de Luiz Gonzaga um dos maiores astros da música brasileira.

Eterno clássico, hino do povo nordestino, a canção chegou a virar White Wings, em inglês. Teve mais de 500 regravações no mundo todo, em diferentes línguas. Humberto Teixeira gostava de lembrar: “Aquele dia, no estúdio RCA, os músicos que brincavam com a toada mal sabiam que estávamos gravando ali uma das páginas mais maravilhosas da música brasileira."

Mais um pouco da sua Biografia

No ano de 1930 saiu de casa para servir o exército como voluntário e viajou o Brasil como corneteiro, tocando sanfona em festas. Para ele foi uma fase também muito importante, foi quando teve realmente acesso às várias culturas que encontramos neste país e Luiz Gonzaga pode levar seu talento e sua cultura para várias regiões do país além de alegrar seus companheiros. 

No ano de 1939 saiu do exército e foi morar no Rio de Janeiro com sua primeira sanfona nova e tocava em festas na Lapa ou se apresentava nas ruas passando o chapéu. O homem simples não tinha vergonha de se apresentar na rua e foi assim, longe dos holofotes, longe dos palcos que ele começou sua carreira no Rio de Janeiro, tocando na rua, apenas um estranho, apenas mais um entre muitos que buscavam ganhar algum dinheiro para sobreviver na cidade maravilhosa. 

Mas seu talento era muito grande e logo começou a participar de programas de calouros e no programa de Ary Barroso na Rádio Nacional finalmente ganhou o primeiro lugar com sua música Vira e Mexe. Já nesta época Luiz Gonzaga atraia a atenção das pessoas, já tocava bem melhor, sua voz inconfundível dava nova tonalidade às canções e o ritmo não deixava ninguém ficar parado e tudo isto despertava a atenção das pessoas e começava já a chegar também nas rádios. 
Luiz Gonzaga ainda jovem.
No ano de 1943 ainda na Rádio Nacional começou a se vestir de vaqueiro nordestino e começou a parceira com Miguel Lima, transformando a música Vira e Mexe em Chamego que obteve bastante sucesso, recebendo nesta época o apelido de Lua do amigo Paulo Gracindo. Com Miguel Lima ele compôs várias músicas de sucesso, como Dança Mariquinha, Cortando Pano, Penerô Xerém, Dezessete e Setecentos gravados pelo sanfoneiro e cantor alcançando bastante sucesso.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Homenagem ao Centenário do Rei do Baião

Mais uma vez a RTV Produções realiza o filme de comemoração do São João para todo o Nordeste. Essa homenagem da Rede Globo Nordeste contou agora com desenhos da Quadro a Quadro e música da Onomatopéia, contando a história de Luiz Gonzaga, e seus 100 anos de inspiração para o São João do Nordeste.

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira


O Sanfoneiro Luiz Gonzaga começou seu compromisso musical para com o povo brasileiro, iniciado desde sua infância com o pai, Seu Januário, de ano de 1941 a 1989 por ocasião de sua partida para a eternidade. Durante os 50 anos de sua vida musical teve 53 parceiros musicais, aproximadamente, dos quais o Sr. Dr. Humberto Teixeira fez parte destes, sendo o 7º parceiro do 'Sanfoneiro do Povo de Deus', parceria que duraria de 1946 a 1952. Assim como os demais, este, teve uma boa participação na parceria com 'Lua'. O 'Eterno Cantador' cantou ainda músicas de aproximadamente 198 compositores, contudo, com a grande preocupação se essas músicas, tinham realmente compromisso com o Nordeste. Tudo isso além de suas composições pessoais.
          Foi o 'Véio Macho' o primeiro a ter compromisso pelo Nordeste, conforme afirmara Veríssimo de Melo: "De raízes autenticamente nordestinas - justifica - sua música foi um grito de protesto e ao mesmo tempo de amor pela nossa região. Ninguém, antes deles, falou com maior propriedade insistentemente pela valorização do homem nordestino. Falou com o coração e com a música - as duas faces de sua sensibilidade de predestinado". Sua música não era falácia, mas um canto que brotava da realidade de cada homem brasileiro, em especial, do homem nordestino.
          O Soldado de Getúlio Vargas, de 1930 a 1939, queria ganhar a vida por meio da música, mas com uma música autenticamente brasileira, não precisando importar. Após passar pela zona violenta do Rio, o Mangue, e chegar a Rádio Nacional, ele queria cantar o Nordeste, conforme, afirmara à Dominique Dreyfus: "Eu queria cantar o Nordeste. Eu tinha a música, tinha o tema. O que eu não sabia era continuar. Eu precisava de um poeta que saberia escrever aquilo que eu tinha na cabeça, de um homem culto pra me ensinar as coisas que eu não sabia". O filho de Januário e Santana continuava a procurar um parceiro para que o completasse, vindo a ocorrer o encontro com Humberto Teixeira. O Doutor do Baião metrificava aquilo que Gonzaga tirava de forma ampla de seu matulão, que tinha trazido do Sertão, lá Nordeste para o Sul. O Moleque "amarelo, bochudo, cabeça de papagaio, zambeta, fei pá peste" finalmente estava se encontrando com o parceiro que sempre sonhara. Contudo, o Sr. Dr. Humberto Teixeira a princípio não pensava que estava fazendo uma parceria com o Maior Sanfoneiro Nordestino, Sua Majestade, o Rei do Baião.
         Ambos, antes do encontro, já tinham sua história musical: Humberto Teixeira entendia de flauta e bandolim, já tinha músicas gravadas tais como - valsas, cantigas, sambas, modinhas, toadas - nada tinha de especificamente nordestino; Luiz Gonzaga já tinha gravado e tocado mazurca, valsa, xamego, choro, polca, chorinho, picadinho, quadrilha, valsa/marcha, marcha, calando, embolada e xote. Vale ressaltar que xote ele tocava com Pai Januário lá no Araripe, mas ainda não tinha gravado. Desse encontro que duraria 5 anos de trabalho musical, a dupla Gonzaga/Teixeira produziu, compôs e gravou xote, toada, polca, baião, siridó, batucada, xaxado.
          Numa tarde de agosto de 1945, Gonzaga se encontra com Humberto Teixeira e manifesta a vontade de cantar o Nordeste, sanfonando temas tradicionais do Araripe, Exu. Então surge, flui, da dupla a música No Meu Pé de Serra, um xote autobiográfico, com melodia inspirada numa música do repertório de Seu Januário.
          Luiz Gonzaga anos mais tarde, no livro 'A Saga de Luiz Gonzaga de Dominique Dreyfus, relembra o encontro afirmando, falando da origem dessa música: "Lá no meu pé de serra/Deixei ficar meu coração/Ai que saudades eu tenho/Quero voltar pro meu sertão...". "Essa letra dizia a saudade que eu sentia do Nordeste". Será que ainda se pode negar que essa música não seja sentimento e enredo de Luiz Gonzaga, e que não tenha como fonte, o Araripe, o Nordeste? A parceria de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira tiveram outros clássicos, nos quais, quero destacar a música Asa Branca.
          Denise Dummont, filha do Dr. Humberto Teixeira o parceiro de Luiz Gonzaga na música Asa Branca, chegou a afirmar neste excelente veículo de comunicação do dia 20 de maio em curso, no Caderno Vida & Arte chegou a afirmar: "Todo mundo canta 'Asa Branca' e ninguém sabe quem foi Humberto Teixeira, quando na verdade ele foi grande compositor. Ele fez várias músicas sozinho. (...). A obra musical do papai ficou ofuscada pelo grande pernambucano Luiz Gonzaga. está na hora de trazer o papai à tona". Na verdade vivemos numa sociedade onde os valores culturais são na sua maioria esquecidos, mas, é preciso despertar e conservá-los em nossa sociedade hodierna.
          É preciso que fique claro que a música faz parte desses valores culturais em crise. Faço destaque a música de Luiz Gonzaga com seus parceiros e compositores que tinha um compromisso especial para com o Nordeste. Teria sido bem melhor se dona Denise Dummont ao falar da importância da música Asa Branca tivesse mencionado a parceria de Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira, conforme trazem os LPs. Pois essa música foi parceria dos dois, segundo depoimentos de Luiz Gonzaga: "Com Humberto Teixeira fiz Asa Branca, o Baião, Assum Preto, tantas músicas de minha sensibilidade e que ficarão comigo eternamente. Quando apresentei a música a Humberto falei para ele: Agora estou com vontade de fazer Asa Branca. Mas não boto muita fé, porque é muito lenta, cantiga de eito, de apanha de algodão. Humberto pediu para eu cantar a música, eu cantei e ele me convenceu a fazê-la".
          Luiz Gonzaga era conhecedor dessa riqueza musical porque ouvia o pai, Seu Januário tocar no seu fole de 8 baixos: "Asa Branca foi-se embora/ Bateu asa do Sertão/ Larará não chore não..." e o povo dava continuidade, completava o tema dado por Seu Januário. O Rei do Baião ainda relembra os momentos em que compunha com Humberto Teixeira, afirmando: "Quando eu quis me lembrar das coisas que tocava quando era menino, para Humberto Teixeira botar letra, eu tive certa dificuldade, não me lembrava muito". Tudo isso nos prova que Sr. Dr. Humberto Teixeira juntamente com Luiz Gonzaga deram letras aos temas que Gonzaga trazia lá do Araripe, a cantiga do povo.
          Gonzagão com sua intuição sertaneja que sempre acompanhara, falando sobre a contribuição que dá ao folclore, diz: "A pessoa não deve matar o tema, deve melhorá-lo. Asa Branca era folclore. Eu toquei isso quando era menino com meu Pai. Mas aí chega Humberto Teixeira e coloca: 'Quando olhei a terra ardendo/ Qual fogueira de São João... e se conclui um trabalho sobre Asa Branca". Humberto Teixeira, o Doutor do Baião, teve uma participação especial e importante em melhorar com Luiz Gonzaga o trabalho sobre Asa Branca, porém, ele não autoridade exclusiva sobre o tema. Esse clássico Gonzaga já conhecia desde a sua infância por meio da tradição oral. Também é necessário reconhecer que Humberto Teixeira fez outras músicas sozinho e com outros parceiros.
          Denise chegou afirmar ainda que Luiz Gonzaga tinha ofuscado a obra musical de seu pai, e que estava na hora de trazê-lo à tona. Realmente concordo que o Sr. Dr. Humberto Teixeira está esquecido, bem como, dá ênfase nos dias de hoje a importância dele na história musical, mas, não se deveria ofender, molestar a pessoa do Cantor e Sanfoneiro Luiz Gonzaga, in memoriam.
          O Rei do Baião jamais ofuscou Humberto Teixeira, pelo contrário, em setembro de 1968 lançou um LP homenageando o Parceiro, intitulado: Meus Sucessos com Humberto Teixeira; e em 1970 lançou: Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira (Coleção História da MPB/ Abril Cultural). Como ainda se diz que Luiz Gonzaga ofuscou musicalmente Humberto Teixeira? Lamento muito, acho que a senhora Denise Dummont não foi tão feliz nessa colocação.
          Por volta de 1952 num determinado evento no Rio de Janeiro, Ademar de Barros foi cumprimentá-lo e disse, segundo depoimento do próprio Humberto Teixeira, "que eu era um bom orador e que eu deveria me candidatar. E que ia me dar uma legenda... eu acabei com uma suplência e depois me diplomando como deputado federal. Luiz Gonzaga estava na época em Rio Grande do Norte quando soube que eu estava me candidatando, e saiu de lá e veio me prestar uma ajuda maravilhosa, inclusive de transporte, gasolina. Eu não tinha dinheiro nenhum e posso dizer que foi Luiz Gonzaga que me colocou na deputação".
          O motivo, pela qual, parceria de Gonzaga/Teixeira chegou ao fim e num clima de grande amizade, segundo depoimentos de Dr. Humberto Teixeira: "Ora, existia uma lei que proibia um autor de uma sociedade fazer parceria com um compositor de Outra. Por isso, parou a parceria. Mas nada disso afetou a nossa amizade". Essa sociedade eram as associações de direitos autorais. Será que depois de tudo isso, Luiz Gonzaga teria ofuscado Dr. Humberto Teixeira.
          O folclorista Câmara Cascudo ao fazer referência à obra e a pessoa de Luiz Gonzaga, classifica-o de paisagem pernambucana, paisagem composta de água, matos, caminhos, silêncios, gente viva e morta. "O artista Gonzaga nunca se separou do homem sertanejo que jamais esqueceu suas raízes e cantou sua saudade e todo o amor que tinha pelo Sertão e seu povo. Tanto que sua obra é um verdadeiro acervo cultural do Nordeste, onde se encontra o perfil completo da Região com todos os seus personagens e os seus detalhes".
          Não dá para ficar calado. É necessário fazer justiça à obra e à pessoa que defendeu o Nordeste até a morte. Faço minhas as palavras de Nelson Barbalha: "Gonzagão, de saudosa memória, sustentou a peteca durante mais de meio século, sem jamais deixá-la cair no chão. Foi, é, e será inatingível. Muita gente o imita, ninguém o iguala. Era mesmo insubstituível". Ele era realmente "O Homem da Terra", "O Asa Branca da Paz".

                                                  Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira