sábado, 2 de junho de 2012

Nem Luiz Gonzaga acreditava na Asa Branca

Eterno clássico do povo nordestino, a canção foi tachada de "música de cego".

"Não boto muita fé nessa música, porque é muito lenta, cantiga de eito, de apanhá algodão", disse Luiz Gonzaga para Humberto Teixeira. O advogado cearense quis letrar aquela toada folclórica mostrada pelo amigo, mesmo com o receio dele. A grande parceria, que estava no início, rendeu então seu terceiro fruto. No próximo disco de Gonzaga, que traria a marchinha Vou Pra Roça no lado A, Asa Branca poderia entrar no lado B – os 78 rpm tinham uma música de cada lado.

Em 3 de março de 1947 estavam Gonzaga e Teixeira, mais a banda, para gravar as novidades no estúdio RCA, Rio de Janeiro. “Quando olhei a terra ardendo, qual fogueira de São João...”, entoou o vozeirão. Eis que um dos músicos pega um chapéu e vai passando entre os colegas. “O que é isso?”, perguntou Humberto. “É que isso parece música de cego pedir esmola!”, brincava o violonista Canhoto. Ele não se conformava que, depois de tanto sucesso, o Rei do Baião estivesse cantando “moda de igreja”.

Eu vou pra roça com muié e fio / Vivê pertinho do paiol de mío / Riscá a viola junto do paiol / A gente brinca até o nascer do sol
. Lembra dos versos? Remotamente, talvez. Assim que o disco foi lançado, Vou pra Roça passou totalmente despercebida. Mas Asa Branca estourou no ato, fazendo de Luiz Gonzaga um dos maiores astros da música brasileira.

Eterno clássico, hino do povo nordestino, a canção chegou a virar White Wings, em inglês. Teve mais de 500 regravações no mundo todo, em diferentes línguas. Humberto Teixeira gostava de lembrar: “Aquele dia, no estúdio RCA, os músicos que brincavam com a toada mal sabiam que estávamos gravando ali uma das páginas mais maravilhosas da música brasileira."

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