A dança que Luiz Gonzaga ensinou
"Eu vou mostrar pra vocês

como se dança o baião
e quem quiser aprender
é favor prestar atenção"
(Baião, Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira, 1946)
Como outros gêneros, o baião designou inicialmente um tipo de reunião festeira dominada pela dança. O folclorista Câmara Cascudo o associa aos termos "baiano" e "rojão". Este último seria o pequeno trecho musical executado pelas violas no intervalo dos desafios da cantoria. Quem imprimiu o formato urbano (e portanto pop) ao gênero foi o sanfoneiro pernambucano Luiz Gonzaga do Nascimento (1912-1989). Imigrante pobre no começo da década de 40, Gonzaga passava o pires nos bordéis do Mangue carioca enquanto tirava na sanfona valsas, sambas e serestas de sucesso na época. Estimulado por frequentadores conterrâneos anexou a seu repertório "coisas do sertão", entre elas o baião. Com o primeiro parceiro o fluminense Miguel Lima compunha mais mazurcas, calangos e ritmos adjacentes. Associado ao compositor e advogado cearense Humberto Cavalcanti Teixeira (1916-1979) obteve o respaldo poético telúrico que lhe faltava. Mas Teixeira admitia que a idéia tinha sido do parceiro. Em depoimento ao pesquisador Miguel Angelo de Azevedo, o Nirez, reproduzido no livro Vida do viajante: a saga de Luiz Gonzaga, de Dominique Dreyfus (Editora 34, 1996), ele garantiu que Gonzaga planejou meticulosamente o lançamento nacional do baião, junto com outros gêneros nordestinos.
O ritmo binário do baião,
vestido por melodias dolentes muitas delas em modo menor, foi
devidamente estilizado, amaciado para o paladar urbano pelo sanfoneiro.
Antes dele, o cearense Lauro Maia (Teles, 1912-1950), autor entre outros
do sucesso Trem de Ferro, gravado por João Gilberto, fez a primeira
tentativa de emplacar um gênero nacional a partir do nordeste, através
do balanceio, gravado com algum êxito pela dupla Joel e Gaúcho (Marcha
do Balanceio) e dos Vocalistas Tropicais (Tão Fácil, Tão Bom).
O sucesso de Gonzaga na empreitada foi tão grande que ele
desequilibrou o eixo da MPB do meio para o fim dos anos 40 até meados
dos 50. Antes o mercado musical era lastreado no samba, marchinha, choro
e outros produtos do centro cultural do país, o Rio. A bordo de
sucessos monumentais como o supracitado Baião e mais Asa Branca,
Juazeiro, Paraíba, Qui nem Giló, Respeita Januário, Sabiá, Vem Morena,
Baião de Dois, Imbalança, Noites brasileiras e inúmeros outros (além de
xotes, xamegos, toadas, cocos, xaxados e até maracatu), Gonzaga colocou o
nordeste no mapa (inclusive das vendas) da MPB. No auge, as prensas da
gravadora RCA (atual BMG) onde era contratado, trabalhavam quase
exclusivamente para seus discos. Além de Teixeira, Gonzaga teve outro
parceiro fixo, o médico pernambucano José de Souza Dantas Filho, o Zé
Dantas (1921-1962), responsável por obras primas como a toada A Volta da
Asa Branca, A Dança da Moda (referência ao sucesso do baião), Riacho do
Navio, Vozes da Seca, Cintura Fina, Algodão e alguns dos relacionados
acima.

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